14 – Chapati da Rita Lobo e a ancestralidade mágica

Queridos leitores, creio estar enferrujada na arte de fazer posts, afinal minha relação com os textos esteve de molho por pouco mais de um ano! Mas a saudade bateu na minha porta hoje e trouxe uma mudinha de inspiração, vou botar água e ver crescer novamente!

Enfim..

Hoje eu sentei na mesa da cozinha, pequei meu livro lindo da Rita Lobo e lembrei instantaneamente que já faz tempo que queria fazer chapati (pão indiano) e que tinha uma receita no livro dela. Tinha fome, preguicinha e ando achando que uns dois quilos a menos me cairiam bem, então queria uma opção light pois meu almoço já tinha sido uma orgia gastronômica.

Chapati parecia moleza, leve, gostoso e muito significativo. Fechado, era isso!

São 4 ingredientes básicos, trigo, sal, óleo e água. Mistura com as mãos.. e o clima começou a rolar nessa hora! Foi lindo, olhei minhas mãos, tirei a aliança (mania de cozinheiros… por poder conter bactérias e outros brindes indesejáveis sempre tiramos anéis e outros adereços) e fiz uma prece… Queria ser digna de fazer o meu pão com minhas mãos. Simples assim, mas cheio de significado.

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Sou dessas que toda vez que vai ao mercado compra um sachet de fermento de pão naquele sentimento: Uma hora eu tomo coragem e faço um pão! Mas essa hora nunca chega… e o sachet vence e vai pro lixo.

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Acho que não tem coisa mais básica, primária e elementar na cozinha do que fazer pão. E não parece possível se colocar na frente dos ingredientes do pão e não pensar que é isso que trouxe a humanidade até aqui. Que é isso que simboliza a comunhão. Que é isso que é o sustento básico de todo e qualquer povo, desde sempre.

Pão é vida! Pão é lindo de viver!

E esse é um dos pães mais primitivos que a humanidade desenvolveu, simples de tudo.. mas com uma energia incomum. Com um brilho dourado que é mais do que trigo, sal com óleo e água tostado. Acho que esse brilho é a alma do pão.

Como é sexta e eu tava mesmo atrás de uma comida prática, para acompanhar o pão mágico eu apenas aqueci manteiga clarificada num potinho e no outro coloquei zatar e azeite. Não precisou de mais nada. Fiz uma linda ligação com a ancestralidade atemporal e comi com gosto meu próprio pão cheio de luz!

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Amar, misturar, sovar, descansar, bolear, amassar, assar, degustar, amar, misturar..

Comer e ser feliz!

 

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9 – N. Sra. da Lactase, pode tirar uma folguinha!

Aprendi que os três ingredientes indispensáveis da gastronomia são: manteiga, manteiga, e … manteiga!

Pois bem, ontem quis fazer uma cenoura caramelizada em casa. De pronto, o cozinheiro que cohabita meu lar e meu coração, resmungou: é, mas cuida pra não queimar porque isso devia ser feito com manteiga clarificada – que não temos em casa.

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As cenouras ficaram ótimas, deliciosas, suculentas, mas não perfeitas! Bom, mesmo que ele não dissesse uma palavra, estava claro que a lição de casa era fazer manteiga clarificada. Para uma leonina, missão dada é missão cumprida!

Na mão: 5 livros, google, 1,5kg de manteiga sem sal, 1 panela, 1 escumadeira, 1 prato e o fogo mais baixo possível no universo, por cerca de 1 hora.

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Ps: ao final do processo eu experimentei as duas partes: a espuma branca tem gosto de leite, porém com aquela sensação que amarra a boca. Já o óleo (manteiga clarificada) tem um gosto doce e textura aveludada, incrível!

Vamos resolver a frase dele “… cuida pra não queimar..” por partes:

  1. O que é manteiga: gordura semissólida, produzida ao bater-se creme de leite, deve conter pelo menos 80% de gordura láctea. A matéria gorda da manteiga deverá ser composta exclusivamente de gordura láctea. Uma manteiga de boa qualidade tem uma composição média de 83% de gordura, 16% de água, 0,4% de lactose, 0,15% de cinzas e sal.
  2. O que é manteiga de garrafa: é um produto que permanece líquido à temperatura ambiente, e resulta do cozimento de creme de leite em temperatura baixa, até que toda a água evapore, restando somente a gordura e algumas partículas sólidas.
  3. O que é manteiga clarificada: gordura da manteiga purificada, sem sal, sem os sólidos do leite (esses que iam queimar e amargar minhas lindas cenouras orgânicas), tem vida mais longa do que a manteiga, e alto ponto de fumaça (é uma alta temperatura, na qual se inicia a formação da fumaça- ter alto ponto de fumaça que dizer que atinge uma temperatura maior antes de surgir a fumaça, ou seja, iam levar minhas cenouras às alturas). Não é a mesma coisa que manteiga de garrafa.
  4. Reação de Maillard, seu lindo: é o cara que descobriu a cor do pecado nos alimentos, o cheiro inebriante que nos seduz tal qual o canto das sereias, e o sabor complexo que explode na boca quando comemos um quitute com aquele queimadinho, que consegui nas cenouras, rá! Acontece em presença de proteína, então não foi tão ruim que eu tenha usado manteiga normal ao invés da clarificada.
  5. Reação de Caramelização: é parecida com Maillard, porém usa um tipo diferente de açúcar. De qualquer sorte, ela também se fez presente na minha frigideira e no nome do prato que comemos. Poderia rebatizar para Cenouras Caramelizadas à Maillard.

 

Acontece que tudo isso acendeu uma lâmpada na minha cabeça grande, se ao clarificarmos uma manteiga, obtemos apenas o óleo, deixando de lado as partes sólidas do leite, a manteiga clarificada não tem lactose (açúcar do leite)! Nããão!

Corri buscar um livro sobre comidas sem lactose, para minha decepção não achei a palavra “clarificada”, quem dirá, a palavra “manteiga”, o óleo de girassol foi para mim um balde de água fria. Ok, recorri ao Google.

E achei uma coisa incrível, nunca tinha ouvido falar no termo Ghee, que é manteiga clarificada!

Muito usado na alimentação ayurveda e por naturopatas em rituais de cura e rejuvenescimento. Amei!!!

Traz diversos benefícios para a saúde, não só físicos como energéticos e sutis, leiam mais nesse endereço: http://blog.opovo.com.br/yoga/ghee-manteiga-clarificada/.

Acho lindo quando encontro esses elos perdidos entre a gastronomia e o bem viver, manteiga clarificada é meu novo elo!

Comer e ser feliz!